Ensaio sobre a relação entre a ciência e a religião

Existem algumas vertentes “filosóficas” que termino por esbarrar (ou procuram debater no blog) de forma repetida: teorias da conspiração, eventos e criaturas paranormais/extraterrenos e o velho debate entre a religião e ciência.

Sobre teorias da conspiração, já debatemos um pouco, no artigo “Teoria da conspiração…contra a nossa inteligência.” , o qual recomendo a leitura. A mais chata atualmente, e não sei bem por qual razão, é a de que o planeta Terra seria plano, conforme pode ler no artigo “Movimento Sociedade Terra Plana (STP), é sério?

É bastante comum que membros de um determinado grupo possuam certa similaridade na escolha da religião (ou de sua ausência). É prática comum me questionarem se pertenço à religião X ou Y, já que são as mais proeminentes em meu grupo e o que normalmente me torna bem aceito. Geralmente existem algumas outras religiões que são toleradas dentro de um grupo, mas nem sempre entre seus integrantes (por conflitos diretos entre suas bases/ensinamentos).

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Por exemplo: Aqui no Brasil é bem comum ser católico ou protestante (atualmente), mas já não é tão comum praticar o budismo, islamismo ou umbanda. De forma que, ao mudarmos de grupo ao longo do planeta, percebemos que essa aceitação/rejeição muda. Tente prospectar a religião católica na Índia, muito provavelmente você terá dificuldades (e até sofrerá com isso), por outro lado, o hinduísmo é bem aceito por lá.

Apenas por este aspecto geramos um problema: afinal, qual religião prega o que é correto? Cada grupo defende a sua com seus argumentos, mas se tomarmos a questão de forma isenta, não teremos um critério para afirmar quem está seguindo a religião verdadeira. Podemos encontrar alguns grupos mais tolerantes, afirmando que os preceitos aplicados em outra religião seguem um caminho válido, mas se aprofundarmos o debate, veremos que elas conflitam em diversos pontos, e neste caso, será que um grupo afirmará estar incorreto? Acredito que não, e as guerras religiosas estão aí para nos confirmar isto nos casos mais extremos.

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Abrindo uma exceção e atropelando um pouco o texto, podemos perceber que existe uma maior aceitação, atualmente, entre a religião católica e a ciência no que se diz respeito à publicação “A Origem das Espécies” de Charles Darwin (1859), no entanto, geramos sérios problemas ao debater esta mesma teoria com alguém, ou um grupo, que acredita no criacionismo, design inteligente e afins. No entanto, não podemos dizer que a religião católica possui total afinidade com a ciência, nem de longe.

Veja aqui algumas das principais religiões no mundo e suas características: http://www.abril.com.br/pagina/principais_religioes.shtml

O grande problema das religiões é que elas se baseiam em verdades pessoais, ao invés de verdades objetivas.

Há vários tipos de verdades lá fora: uma delas vamos chamá-las de verdades objetivas e as outras de verdades pessoais.

Verdades objetivas são coisas que podem ser estabelecidas a despeito de quem faça o experimento. Então, são a natureza da realidade.

Por outro lado, há coisas que uma pessoa pode chamar de verdades pessoais. E isso é, se você acredita que Jesus é seu salvador, ou que Maomé poderia mover uma montanha, são suas verdades pessoais, são coisas que você preza muito, talvez você saiba que são verdades em “sua alma/intimo”, mas para fazer com que alguém concorde com você, terá que fazer uma lavagem cerebral ou convertê-las a força. E verdades pessoais nem sempre estão de acordo umas com as outras conforme você viaja pelo mundo (como exemplificamos no inicio do texto).

Boa parte de nossa evolução se deu graças a ciência (agricultura, medicina, tecnologia, etc), e a ciência se baseia em verdades objetivas, ou seja, os eventos são testados e reproduzíveis por quem quer que seja.

É sempre comum escutar que a ciência não pode provar a existência de deus (ou deuses), e então adentrar na afirmativa de que ausência de evidência não é evidência de ausência. Correto! Mas porque não testar as manifestações de deus? como a melhora de um paciente graças as orações, ou em manifestações físicas criadas para um propósito, etc. Isso a ciência pode fazer! E quase sempre o resultado é uma explicação bem mais simples.

Aqui é interessante trazer um trecho citado por Carl Sagan, onde ele cita dois termos sobre este tema: o ateu e o agnóstico.

Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem provas irrefutáveis contra a existência de Deus. Não conheço essa evidência convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que agora para ter certeza de que Deus não existe. Para ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me ser os extremos confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza quanto ao inspirar muita pouca confiança no mesmo.” – (Carl Sagan, em Wakin, Edward – Maio de 1981. “God and Carl Sagan: Is the Cosmos Big Enough for Both of Them?”).

Resumindo:

  • Teísmo: crença
  • Ateísmo: descrença
  • Agnosticismo: nem crença, nem descrença – dúvida, digamos

E, combinando-os, temos:

  • Teísmo gnóstico: saber que existe um ou mais deuses
  • Teísmo agnóstico: não ter certeza se existe um ou mais deuses, mas viver como se existisse
  • Agnosticismo: repete-se o que está acima, isto é: nem crença, nem descrença – dúvida, digamos
  • Ateísmo agnóstico: não ter certeza se existe um ou mais deuses, mas viver como se não existisse
  • Ateísmo gnóstico: saber que não existe qualquer deus

Para um entendimento melhor sobre o tema, recomendo a leitura do artigo “Teísmo, agnosticismo, ateísmo agnóstico e ateísmo gnóstico

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Esse tipo de situação ocorre desde os primórdios da civilização, e para o bem ou para o mal, teve sua serventia. Existe uma teoria que ilustra bem isto, chamada de “Deus das lacunas”: costumamos dar este título quando Deus é invocado para preencher os espaços no conhecimento científico. Por exemplo: há milhares de anos, a explicação para trovões e outras manifestações do clima, eram creditadas aos deuses (e seus caprichos), mas com o passar do tempo, podemos entender que existe uma explicação física para o fenômeno, e que foi totalmente testada e provada, com um método que qualquer pessoa pode reproduzir. Isto ocorre com doenças e outras manifestações da natureza. Esse tipo de situação (explicação sobrenatural) ainda ocorre, quando não possuímos explicação para determinado fenômeno, porém, o tempo nos mostra que deus é um bolso cada vez mais vazio, no sentido de preencher as lacunas do desconhecido.

O termo deus das lacunas é, por vezes, utilizado para descrever a tentativa de fazer explicações religiosas com argumentos que ainda não podem ser testados pela ciência.

Simplificando: (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Deus_das_lacunas)

Estrutura lógica:

Pode ser explicado pela tentativa de explicar deus com argumentos não-válidos para a ciência.

  • Algo ainda não pode ser explicado.
    -> Existe uma lacuna no conhecimento da ciência
  • Logo, a explicação deste algo deve ser: uma ação de Deus, ou de um designer inteligente.
    -> Infere-se que a falta de explicação, ou existência de uma lacuna no conhecimento, provaria existência de Deus, ou de um designer inteligente.

Outros exemplos:

  • Um homem curou-se dum câncer e nenhum exame médico conseguiu explicar como isto aconteceu. Isso deve ter sido um milagre de Deus. Sendo assim, Deus existe.
    -> Não foi levado em consideração que existem muitas características ainda não descobertas sobre o câncer e também sobre o homem que foi curado. O câncer poderia ter sido de uma forma fraca, que foi combatida pelo sistema imunológico, ou o homem pode ter alguma informação genética desconhecida que o torna seu corpo melhor em combater câncer.
  • Aquelas pessoas foram vítimas de um acidente aéreo, dentre tantas outras pessoas, foram as únicas que sobreviveram. Elas rezaram, por isso Deus as salvou.
    -> Pode também ser entendido como apelo à ignorância, porque não se pode saber se as pessoas que morreram, rezaram. Nesse caso, admite-se um milagre que fez com que as pessoas que rezaram sobreviveram. Ora, necessita-se de mais informações sobre esse acidente, como se as pessoas que sobreviveram estavam sentadas próximas à saída de emergência ou se elas conseguiram seguir os procedimentos de segurança de um avião. Mesmo que, ainda assim, a sobrevivência dessas pessoas não fosse explicada, isso não quer dizer que o que tenha acontecido com elas foi um milagre.

Recomendo a leitura de uma entrevista com o físico Marcelo Gleiser, sobre esse tema: http://www.fronteiras.com/artigos/marcelo-gleiser-e-o-deus-das-lacunas

Podemos então perceber que não existe nenhum problema nas verdades pessoais, e sobretudo na religião, no entanto esse tipo de verdade/crença, deve ser tomada apenas para si e para o grupo que se manifesta de forma favorável para essa verdade. Os dois grupos (verdades pessoais e verdades objetivas) podem coexistir, desde que cada um respeite a linha que os separa, vários autores*² citam esta possibilidade de harmonia (Settle 1996, Lacey 1996, Turner 1996, Poole 1996, Woolnough 1996, Wren-Lewis 1996), no mesmo volume de Science & Education, inteiramente dedicado ao tema “Ciência, Religião e Educação”.  Lacey (1996), discordando da interpretação de Mahner e Bunge*¹ a respeito dos fenômenos religiosos, na medida em que ela ignora a sua diversidade, propõe uma perspectiva alternativa sobre as relações entre ciência e religião, que pressupõe a possibilidade de um diálogo construtivo entre estes dois sistemas de conhecimento. Ele também defende a compatibilidade entre formação religiosa e científica, advertindo, contudo, que considera que as crenças religiosas não devem interferir no ensino de ciências, resguardando-se a consistência dos dois discursos..

Exemplificando: seria imprudente trocar um tratamento farmacológico, cientificamente comprovado, para um enfermo, em detrimento de orações. Podemos sim fazer ambos, mas lembrando que as orações fazem parte do grupo das verdades pessoais, ou seja, é uma questão de fé e que não possibilita reprodução (se permitisse reprodução, todas as orações, ou a maioria delas, iriam curar os pacientes, e sem o auxílio de medicamentos).

Outro fato interessante que venho percebendo, e pode ser uma pesquisa para um futuro artigo, já que não tenho nenhuma evidência corroborando meu pensamento neste momento, embora Mahner e Bunge (1996)*¹ afirmem que a formação religiosa, especialmente quando iniciada precocemente, constitui um obstáculo para a formação de uma mentalidade científica, assim, acredito que pessoas que tomam a religião de forma mais intensa, e acreditam em seus efeitos, possuem uma pré disposição maior na aceitação de terapias pseudocientíficas, ou seja, que não possuem comprovação científica e são tomadas quase como verdades pessoais, e geralmente possuem uma autoridade que reafirma sua “comprovação”, como por exemplo, o médico que afirma resolver seu problema com auto-hemoterapia, “florais” ou até a tão difundida acupuntura. Acredito ser uma relação bastante interessante, observem isto.

De forma a completar o raciocínio anterior, trago um outro estudo intitulado “The Relation Between Intelligence and Religiosity: A Meta-Analysis and Some Proposed Explanations“, conduzido pela Universidade de Rochester (EUA), o qual revelou que, mesmo na infância, quanto mais inteligente for uma criança, mais ela tenderá a se afastar da religião. E, na velhice, gente com inteligência acima da média é menos propensa a ter alguma crença.

Reafirmando: é apenas uma observação de minha parte, não busquei estudos específicos, embora tenha demonstrado aqui outros estudos que debatem a relação entre inteligência e religião.

Gostaria de destacar parte do texto do artigo “Bem-estar subjetivo, educação, inteligência e religião”, de autoria de José Aparecido da SilvaI; Rosemary Conceição dos SantosII

Fonte: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2013000200017

Qual a Relação entre Inteligência e Ateísmo?

Dawkins (2007) sugere que não é inteligente acreditar na existência de Deus. Para investigar essa afirmação dolorida, Lynn, Harvey e Nyborg publicaram um trabalho na revista Intelligence, em 2009, investigando se inteligência média prediz as taxas de ateísmo em 130 nações. Eles examinaram: (a) a evidência para a afirmação, isto é, se há uma relação negativa entre inteligência e crença religiosa; (b) se essa relação negativa é uma diferença na inteligência geral – g e (c) se há uma relação negativa entre inteligência e crença religiosa entre nações.

Em relação à primeira, existem vários estudos relatando correlações negativas entre inteligência e crença religiosa. Por exemplo, num dado estudo, pesquisadores perguntaram “Em que grau você é uma pessoa religiosa?”, com respostas codificadas da seguinte forma: “não religioso”, “levemente religioso”, “moderadamente religioso” e “muito religioso”. Os resultados mostraram que os “não religiosos” tiveram o QI mais elevado (103), seguido, em ordem decrescente, pelos outros três grupos, que pontuaram da seguinte forma, respectivamente: (99), e (97). A relação entre QI e crença religiosa foi altamente significante. Também há estudos mostrando uma menor porcentagem de pessoas da elite intelectual mantendo crenças religiosas quando comparadas à população em geral. Isso foi revelado a partir de um levantamento indicando que apenas 39% dos eminentes cientistas e sábios norte-americanos afirmaram acreditar em Deus, numa amplitude que variou de 48% entre historiadores a 24% entre psicólogos.

Referente à associação negativa entre crença religiosa e inteligência geral, dados obtidos de um estudo longitudinal, que amostrou 15 milhões de adolescentes americanos na idade de 12 a 17 anos, revelaram que os ateístas pontuavam 6 pontos de QI a mais do que grupos combinados de sujeitos que professavam uma ou outra religião. A diferença na inteligência entre ateístas e religiosos foi significativa, mesmo sem usar dados ponderados (Lewis, Ritchie, & Bates, 2011; ver também, Reeve, 2009 e Reeve & Basalik, 2011).

Por sua vez, para verificar a relação entre inteligência e crenças religiosas entre as nações, pesquisadores consideraram, de 137 nações, os QIs obtidos em cada nação e os indicadores de crenças em Deus, o que representou, aproximadamente, uma verificação em 95% da população mundial. Os dados indicaram que, em apenas 17% dos países (23 de 137), a proporção da população que não acredita em Deus situa-se acima de 20%. Estes países são, virtualmente, aqueles que têm QI mais elevado. A correlação entre QI nacional e descrença religiosa variou de +0.16 (populações com QI de 64 a 86), +0,60 (populações com QI de 64 a 108) e +0,54 (populações com QI de 87 a 108). Neste grupo, em particular, 20% da população, não acreditam em Deus (ver também, Kanazawa, 2009, 2010; Lynn & Vanhanen, 2012).

Diante destes estudos destacados, e de outras pesquisas, acredito que de certa forma minha observação faça sentido, uma vez que possuímos menor poder de avaliação sobre questões relacionadas à ciência, estaremos mais susceptíveis as pseudociências. No entanto, o mesmo estudo cita que em relação aos estudos, o efeito da religião sobre o rendimento não fica claro, mas particularmente não acredito que boas notas sejam sinônimo de elevado poder crítico, claro, não é a regra, porém, nem todos que sabem ler possuem a capacidade de interpretar o que estão lendo. Em relação à felicidade, o estudo aponta que as pessoas ativamente religiosas são bem menos prováveis de tornarem-se delinquentes, viciados em drogas e álcool, divorciarem-se e cometerem suicídio do que as não religiosas (provavelmente graças a uma neurose obsessiva que entalha culpa, sexualidade reprimida e emoções suprimidas, associando-a a satisfação e prazer, também citado no estudo).

Podemos então concluir que o assunto merece um pouco mais de cuidado, e que não devemos fazer ataques, quaisquer que sejam, sem uma merecida atenção.

Até a próxima,

Edinaldo Oliveira

*¹ MAHNER, M & BUNGE, M. 1996. Is religious Education Compatible with Science Education? Science & Education 5(2):101-123.

SETTLE, T. 1996. Applying scientific openmindedness to Religion. Science & Education 5(2): 125-141.
LACEY, H. 1996. On relations between science and religion. Science & Education. 5(2):143-153.
POOLE, M . 1996. ‘… for more and better religious education’. Science & Education 5(2):165-174.
WOOLNOUGH, B. 1996. On the fruitful compatibility of religious education and science. Science & Education 5(2):175-183.
WREN-LEWIS, J. 1996. On babies and bathwater: a non-ideological alternative to the Mahner/Bunge proposals for relating science and religion in education. Science & Education 5(2):185-188.

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4 opiniões sobre “Ensaio sobre a relação entre a ciência e a religião”

    1. Olá Mário! Seus textos são excelentes, e no caso, agrega conteúdo ao assunto que abordei. Quem bom que gostou!

      Tentarei fazer mais integrações em postagens futuras…

      Abraço e obrigado mais uma vez por prestigiar meu singelo blog… o seu já acompanho faz algum tempo, quem sabe chego lá rsrsrs

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  1. A questão toda se resume em que tipo de milagre a pessoa quer acreditar. O agnóstico tende a acreditar em eventos aleatórios altamente improváveis, ao passo que o teísta acredita em um agente causador dos fenômenos observados. Para efeitos de entendimento do Universo, entendo ser mais razoável supor a existência de um ente inteligente e poderoso o suficiente para suplantar os eventos improváveis, tais como a origem e sintonia fina do universo, a origem da vida, a origem das estruturas irredutivelmente complexas, etc. Supondo a existência de um agente causador o homem pode, através da ciência, entender e aplicar os métodos de design utilizados para criar estruturas altamente complexas. Entendo isso ser mais razoável e útil do que creditar tudo ao acaso, pois ele é muito ineficiente ser a causa do universo observável.

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